Tradução: Cleonice Paes Barreto Mourão. Livro novo / sem uso. Editora UFMG, 1a. edição, 2003.
Segundo Voltaire, a intolerância foi a doença do catolicismo, o nazismo foi a doença da Alemanha que Thomas Mann procurou conhecer, e o integrismo é, como demonstra este livro, a doença do islã. O autor parte do ato terrorista de 11 de setembro de 2001, que destruiu as Torres Gêmeas e o Pentágono, para traçar as razões internas e externas que exacerbam essa doença.
Saiu na Imprensa:
O Estado de S. Paulo / Data: 6/6/2004 Um diagnóstico e a possível cura
Doença do Islã , de Abdelwahab Meddeb, denuncia fanatismo saudita Mamede Mustafa Jarouche Um dos principais méritos, talvez o maior, do livro de Abdelwahab Meddeb é instrumentalizar o que ordinariamente se chama de "islã histórico" - ou, conforme algumas correntes, "período clássico do islã" - para problematizar determinadas sedimentações da crítica contemporânea. Como já disse alguém, o otimismo do pensamento consiste precisamente em desconsiderar ou encarar como mitologia a existência suposta de "períodos de ouro". Não que o autor menospreze as importantes realizações da civilização islâmica - ele apenas procura encontrar sua justa medida, guardando eqüidistância da estupidez fundamentalista, e de certa desonestidade orientalista. De modo suplementar, o livro ajuda a constatar um fenômeno que se delineia há tempos: boa parte do mais instigante arabismo francês contemporâneo é resultado da atividade de árabes emigrados, o que certamente contribui para questionar seu estatuto de "arabistas" stricto sensu. Dividido em quatro capítulos ( O Islã Desconsolado com Sua Destituição , Genealogia do Integrismo , O Integrismo contra o Ocidente e A Exclusão Ocidental do Islã ), A Doença do Islã (Ed. da UFMG, 178 págs.) procura mapear os motivos do crescente recrudescimento do fundamentalismo islâmico e, quase em sincronia, de uma espécie de antiislamismo militante e agressivo no que se pode chamar, grosso modo, de cultura ocidental. O atentado de 11 de setembro de 2001, que abre o livro, é discutido não somente como subproduto da globalização como, em especial, da americanização do mundo, já prevista por intelectuais europeus mais agudos, como Simone Weil. Os terroristas, como se afirma, são fIlhos diretos dessa americanização. Sinuoso, mas de modo algum caótico, o percurso de Meddeb se inicia no período de hegemonia absoluta do Ocidente (ou talvez fosse melhor dizer: de absoluta impotência do islã). Discute as conseqüências da modernização técnica desacompanhada do correspondente avanço humanístico, que consistiu numa grande catástrofe para os muçulmanos e demais povos do Terceiro Mundo. Apresenta, como adequado contraponto à presente situação de atraso, o exemplo do islã "medieval", que os letrados cristãos da época viam como modelo em mais de um aspecto. Confrontados com a cena contemporânea, esses quadros podem funcionar em muitas chaves, produzindo alentos ou desalentos. Sua melhor contribuição, porém, é a de desmobilizar eventuais pretensões essencialistas que se deleitam com o uso de estereótipos. Fica óbvio (como se fosse necessário prová-lo!) que o pretenso e muito falado "despotismo oriental" não passa de uma invenção iluminista mais tarde utilizada da maneira mais execrável. Trazendo à baila a controversa questão do exercício do poder no mundo islâmico, o livro retoma o trabalho pioneiro O Islã e as Bases do Poder , do egípcio Ali Abdurráziq - que custou ao autor perseguições e condenações por afirmar que os textos canônicos não fazem nenhuma referência, direta ou indireta, à liderança política da comunidade religiosa -, demonstrando, de quebra, como essa discussão fez parte do processo de europeização vivido por intelectuais muçulmanos do início do século 20. A parte mais notável do livro fica por conta de uma constatação que funciona, simultaneamente, como denúncia: trata-se do câncer que se chama wahhabismo, e que o autor nomeia com todas as letras. E o que seria? Para muitos leigos, hoje, o islã se confunde com essa degradação boçal e sórdida. Mãe de todos os fanatismos, o wahhabismo, surgido no século 18 como "obra" de um canalha obtuso, ancestral tanto do terrorismo fundamentalista quanto dos tartufos que governam a Arábia Saudita, constituise no maior perigo para toda a cultura do islã. O próprio marquês de Sade chegou a se manifestar contra essa gente, que, não por acaso, produziu grupos fanáticos como a Irmandade Muçulmana, cuja expansão era não somente apoiada como levada a cabo por agentes americanos. Conforme o autor deixa claro, é preciso muito cuidado para não confundir o islã com essa degenerescência. O wahhabismo se alastra regado a petrodólares e corrompe homens e instituições. Como fenômeno por assim dizer inaugural do fundamentalismo islâmico, o wahhabismo e suas derivações engendraram ideologia e vocabulário característicos, que acabam por se constituir em mais um estímulo e desafio para o estudo da história islâmica. Segundo o intelectual egípcio Khalil AbduIkarim, militante antifundamentalista que Meddeb não cita mas decerto conhece bem, é não só possível como acima de tudo necessário confrontar o fundamentalismo não a partir de uma linguagem exterior à do islã, mas sim a partir da sua própria linguagem, tão rica e diversificada é a cultura por ele engendrada, e que esses grupos, por sinal, ignoram. É o que o livro faz em alguns momentos, com rendimento analítico excelente. Como ressalvas necessárias, caberia notar, primeiro, que é problemática a utilização do termo "integrismo", muito comum na França. Não obstante seja sempre questionável lançar mão de expressões características do cristianismo para fatos islâmicos, "fundamentalismo" parece melhor, pois foi a expressão adaptada na própria língua árabe, ao passo que "integrismo" é bem mais circunscrito, marcadamente ligado ao clero católico. Segundo, não parece adequado o uso que o autor dá, ainda que lhe relativizando as conclusões, aos trabalhos do notório orientalista Bernard Lewis, a cujo método historiográfico, é bom que se diga sem rebuços, falta qualidade. Enfim, como o não-ser é infinito, tampouco parece pertinente pressupor faltas e defeitos por comparação ("faltou ao islã um Dante", etc.) para discutir qualquer civilização que seja. Tais ressalvas, contudo, e mais um ou outro reparo conceitual que se faça ao livro, não lhe empanam o interesse, sobretudo neste momento em que as discussões sobre o islã vão se tomando, sem trocadilho, cada vez mais explosivas.
MEDDEB, ABDELWAHAB
Abdelwahab Meddeb is novelist, poet, translator, and essayist and the editor of the journal Dédale. The author of ten books, he is Professor of Comparative Literature at the University of Paris X - Nanterre.